O Envio Missionário - parte 1

Introdução

Olhemos para a igreja em Antioquia como paradigma de envio, compromisso evangelístico e força plantadora de igrejas. A proposta é fazê-lo sonhar com esse modelo bíblico. Não foram Paulo e Barnabé que iniciaram esse grande movimento de plantio de igrejas entre os gentios, mas uma igreja, sensível ao Espírito, com a visão do Reino, temor à Palavra e pronta para servir. Igrejas plantam igrejas.

Leiamos o texto de Atos 13, versos 1 a 3.

1 Ora, na igreja em Antioquia havia profetas e mestres, a saber: Barnabé, Simeão, chamado Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes o tetrarca, e Saulo.

2 E servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.

3 Então, depois que jejuaram, oraram e lhes impuseram as mãos, os despediram.

O versículo 1 enumera cinco líderes da igreja em Antioquia descritos sob a categoria de profetai kai didaskaloi (profetas e mestres). Profetes era aquele que falava em nome de Deus, também utilizado no grego ático tanto para pregador quanto para expositor das leis. O Didaskalos é o mestre (de didasko: ensino) aplicado para aquele que possui discípulos e, parece-me que nesse caso, esses didaskaloi estavam mais ligados à instrução dos novos convertidos em Antioquia. Nessa lista primeiramente é mencionado Barnabé, o qual era “natural de Chipre” (At. 4:36). Logo após Lucas cita Simeão, referindo-se provavelmente a um africano “Níger” (negro) e menciona Lúcio “de Cirene” provindo do norte da África. Também lista Manaém, colaço (syntrophos: irmão de leite) de Herodes e finalmente Saulo.

O versículo 2 começa com uma ação coletiva: “e servindo eles ao Senhor...”. E as duas perguntas que devem ser aqui levantadas são: quem são “eles” e como serviam ao Senhor? Há três possibilidades para entendermos “eles”, já que o texto não o define: refere-se a toda a igreja em Antioquia; ou apenas aos cinco líderes do verso anterior; ou ainda especificamente a Paulo e Barnabé mencionados separadamente logo após.

Por ausência de ligação textual creio que podemos excluir a “igreja em Antioquia”, restando-nos assim os cinco líderes do versículo 1 e Paulo e Barnabé do versículo 2. De qualquer forma, esses últimos são também mencionados na lista de líderes, portanto os utilizaremos como pressuposto para “eles”. Sigamos, portanto, para a pergunta principal: como serviam ao Senhor?

Leitourgoi – Edificadores do Corpo de Cristo

O verbo “servindo” (leitourgounton) utilizado aqui, aponta para aqueles que serviam ao Senhor como leitourgoi, servos.  Lembremo-nos que havia três formas de alguém se apresentar como “servo” no contexto neotestamentário:

Como doulos - o escravo. Nas palavras de Candus "Aquele que pessoalmente acompanha o seu Senhor para realizar os desejos do seu coração". Portanto, doulos no contexto do Novo Testamento é aquele que tem um compromisso direto com Deus;  que serve pessoalmente ao seu Senhor.

Como diakonos - o mordomo. Aquele que serve ao seu Senhor através do serviço à comunidade. Na palavra o termo é usado para aqueles que, sensíveis à necessidade do Corpo de Cristo - física e espiritual - servem a Deus.

Ou como leitourgos - o edificador. O termo, ligado à leitourgia (liturgia) não é restrito como o usamos hoje. Refere-se àquele que serve ao Senhor sendo usado por Ele para abençoar, edificar, o seu irmão. E essa é justamente a raiz do verbo que expressa que Paulo e Barnabé serviam ao Senhor, afirmando assim que eles eram, antes de tudo, abençoadores, ou edificadores do Corpo de Cristo em Antioquia. Eram uma bênção, como se pode falar hoje.

Portanto, a primeira característica apontada pelo texto a respeito desses dois homens que iniciaram a obra missionária como a conhecemos hoje não foi a competência intelectual, o título ministerial ou a profundidade teológica, mas a fidelidade, e fidelidade de vida em relação aos de perto que os rodeavam em Antioquia.

Uma aplicação objetiva do texto seria esta: não envie para longe aqueles que não são uma bênção perto. Aquele rapaz que diz possuir um claro chamado ministerial, se não tiver primeiramente um desejo ardente pelo ministério comprovado pelo serviço em sua igreja local, certamente não o terá em lugares distantes; ele não está pronto a ser enviado ao seminário ou ao campo. Aquela jovem que insistentemente afirma ter um claro chamado ministerial para a obra missionária em algum lugar distante, se não o demonstrar onde está com os ministérios e oportunidades locais, não o fará também do outro lado do mundo; ela não está pronta a ser enviada ao preparo ou ao campo.

Aplicações do texto para a vida diária

Já vimos que não devemos enviar para longe aqueles que não são uma bênção perto com base no verso 2.

Spurgeon já falava, em 1885, que “nada é mais difícil do que se mostrar fiel aos de perto que bem lhe conhecem”  e aqui três rápidas aplicações poderiam ser feitas.

Pessoal. Não há nada mais perto de nós do que a nossa família. Aquele que não pode ser apontado pela esposa, esposo ou filhos como leitourgos no dia a dia de sua casa, dificilmente será uma bênção fora dela.

Ministerial. Líderes e pregadores que se destacam nos púlpitos e salas de aula de igrejas e seminários, mas fracassam com a família, amigos e pessoas chegadas, não estão prontos para o ministério. Plantadores de igrejas que são exímios no que fazem, nas ruas, praças e templos, porém não têm testemunho de Cristo entre os seus, não estão qualificados ao envio. O ministério não define o próprio ministério. O caráter de Cristo em nós o faz.

Eclesiástica. Não há nada mais perto da igreja do que a própria igreja, os irmãos com os quais nos encontramos a cada semana. Se uma comunidade cristã não demonstra ser leitourgos, abençoadora, para aqueles com a qual convive dia a dia, culto a culto, dificilmente conseguirá fazer diferença em outros lugares, seja perto, seja longe.

Conclusão

A Palavra de Deus segue uma lógica quase sempre crescente. O que for fiel no pouco será também no muito. Quem for uma bênção perto será também longe. É necessário entendermos que “no pouco” e “perto” encontramos oportunidades de aprendizado e crescimento. São ambientes onde podemos observar nossos próprios corações, vermos as áreas de limitação da vida e buscarmos quebrantamento, perdão e edificação para nossa caminhada.

Vivemos um desafio constante de sermos fieis no pouco e abençoadores aos de perto. Usemos desta oportunidade para buscar verdadeiro quebrantamento de coração, pedir que o Espírito Santo nos molde à imagem de Cristo, e nos preparar para continuarmos a caminhada ao ponto de também sermos fieis no muito e abençoadores aos de longe.

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